terça-feira, 17 de novembro de 2009

Labirinto


"The son of man "

"Tudo o que vemos esconde outra coisa,
e nós queremos sempre ver o que está escondido pelo que vemos" - Magritte



Queremos paz - Gotan Project


O Surrealismo é, junto ao Cubismo, o estilo que mais me identifico na busca do tal sentido para a vida. Gosto porque bagunça conceitos e espaços. Gosto porque não propõe explicação. Gosto porque não há linearidade. Não é estética, são pensamentos desconexos em busca do elo perdido. É liberdade e integração.

René Magritte (1898-1967- Bélgica) é um artista fantástico. Brinca com conceitos, torna invisível o visível. É o meu olhar que decifra os signos da obra. E ela está perdida na ilusão, perdida na realidade. É preciso perder-se para encontrar-se. É preciso caminhar.


"La condition humaine, 1933"


São jogos de espelhos. Imagens que convidam um olhar para refletir nova imagem. A interação do olhar reflete a nova obra. É o espelho, dentro de outro, visto de fora. Não há clareza do que é imagem, do que é objeto. O caráter ilusionista e a atmosfera de sonho são próprios da leitura individual do Surrealismo de Magritte, um dos líderes do movimento.





"L'Empire des Lumieres"


"... a paisagem leva-nos a pensar na noite, o céu no dia. Na minha opinião, esta simultaneidade de dia e noite tem o poder de surpreender e de encantar. Chamo a este poder poesia"
- Magritte


E por mais paradoxal que seja, não há nada tão real quanto o Surrealismo, seus signos e sua gênese contraditória. Não há dúvidas, muito menos certezas de onde estamos. Mas vamos assim como o vento...

Celebro, mil vezes, a arte Surrealista! Celebro, outras mil vezes, a genialidade de René Magritte!

E agradeço o vento.










* Há tempos não escrevia, estou enferrujada. Alguns sabiam da minha intenção de fechar o IeBN (havia escrito já o post de despedida). Mas eu encontrei Magritte e ele novamente bagunçou conceitos, espaços e decisões.

** Vi o quanto é bom vir ao calçadão e encontrá-los. Só vale a pena pelo encontro. Também pelo espelho, ainda que seja surrealista.
Assim me perco, me encontro e continuo...

sábado, 17 de outubro de 2009

E aí, moça?




Les jours - Yann Tiersen

Ela vivia um dos seus piores dias. Uma colagem dos piores momentos de sua vida. Eram capítulos dos livros que lia e músicas que ouvia do personagem "drama drama queen". Tudo apontava o caos e começou assim:


- Good morning! (seu primeiro registro de som vinha do celular às 6 horas - ela detesta ser acordada - tudo made in Austrália). Era um jovem feliz por invadir a terra Brasilis. Ela sequer tinha visto o sol.

- Good morning! (respondeu com mãos tateando seu rosto )

Marcou de ir buscá-lo no hotel com sua voz "claro, eu adoro acordar às 6 horas". (Wake up, darling, dizia a si mesma). Precisava acreditar que Friday is enough. Ligou para o taxista amigo. Ele estava longe de São Paulo. Outra pessoa era necessário localizar, mas nesses momentos as pessoas desaparecem. Todos estão dispersos e ela com um problema. Mas como sempre foi descolada, deu seu jeito. Só que antes de sair de casa, interfonaram para avisar que havia um vazamento de gás no seu apartamento. Não sabia se deixava o apartamento em chamas ou o australiano esperando. Descolou, novamente, outra pessoa pra cuidar do gás. Ela se julgava esperta demais pra dias assim. Pegou o elevador e ficou presa por 20 minutos. Vivia uma odisséia, antes das 8 horas da manhã. Mas it's Friday! Entrou no carro para buscar o amigo e....percebeu que sua blusa estava pelo avesso (respira fundo, querida, era seu mantra). Voltou pra sua casa, trocou a blusa e checou se as sandálias estavam em ordem. Tudo verificado, tudo um luxo. Chegou no hotel e ....mais 30 minutos para fechar a conta de impressionantes nove reais. Claro que a atendente não falava inglês. Ela resolveu tudo e pagou a conta. Enfim, liberdade! (por que foi comemorar?) Gastou mais de 1 hora de carro para um destino de 5 Km. Já passava das 10 horas e sua reunião já tinha acontecido. Esperava há meses - e se preparava desde sempre - mas foi, passou. "Não tinha que acontecer no dia", seu novo mantra. Ficou melhor. Foi beber café e colocou sal. Ligou para o ex-namorado - esqueceu que ele estava em lua-de-mel (Is it possible? ). Era 14:00 horas e o melhor era sair, caminhar e almoçar. Mas voou...seu sonho de criança, logo ali, realizado no escritório. Caíra de uma escada de 3 metros, bateu o rosto na parede, esfolou joelho e braço. Queria desmaiar e os amigos não deixaram, era grave o caso. Sua preocupação era com a calça, uma verdadeira fortuna. Felizmente, não rasgou. Foi atendida prontamente por uma amiga, médica, que estava perto. Sem papo, a doutora-amiga disse:

- Vamos para o hospital, pode ter concussão cerebral e... (passou a falar tudo que poderia acontecer em linguagem médica e não entendeu uma só palavra).

Sentia-se derrotada. Numa sexta-feira onde seu lema é "It's friday, it's enough" não esperava pela falta de sorte (ela odeia a palavra azar). Foi ao hospital bem perto, acompanhada por duas amigas. O atendente quase gritou "espera aí" - (ela não ligava mais, não era o seu dia). Mas a amiga-médica disse: o caso é sério e explicou naquela linguagem médica que ela se esforçava em não entender. Enfermeiros a postos, todos se dirigiram a ela.

Foi mancando, sem nenhum charme, cabelo despenteado, brinco caído e o salto da sandália quebrado. Seu batom borrou a blusa nova. "Normal, é o meu dia! Faz parte do inferno astral" - falou bem alto. Se dirigia ao consultório do médico e entrou. Ele disse:

- E aí, moça? O que foi que aconteceu? (ela não acreditava no que via e pensou que estava no céu. Ficou muda e ouviu dele):

- Me conte tudo o que aconteceu.

Ouviu sua amiga-médica sair do consultório e ligar para a irmã para dizer: "eu nunca vi ninguém com tanta sorte. É o médico mais bonito que vi em todos os hospitais, em todas as cidades que trabalhei. Perfeito".

Ele era perfeito e perfeição não se explica, constata.

Ele pegou a mão dela pra testar sua reação. Ela estava paralisada. Ele ficou preocupado e ela disparou a rir. Ria como louca. Sentia a maciez das mãos do doutor-perfeito tocar sua perna, seus braços e o pescoço. Tocou na sua nuca, aiiii...(era o ponto fraco dela, ele sabia, certamente). Foi aí que ele disse:

- Quero que fique no hospital por algumas horas. Você vai tomar um remedinho e vou colocá-la no soro. Não é grave, apenas precaução. Preciso ficar de olho em você, moça. (Sensação de desmaio, mas ela sorriu). Perguntou pra ele:

- Doutor, qual é o seu nome? E sua especialidade? (ela jurava que era cardiologista).

- Renato e sou ortopedista (com uma piscadinha me-devora-agora).

Não se sabe porque ficou no hospital mais de 6 horas. Ele queria dar alta, ela insistia em novas dores.

Foi assim que começou seu inferno astral: ao lado do novo príncipe. E quem acredita em inferno astral?

Já em príncipes...








* Ouvir Yann Tiersen com sol ou chuva desperta em mim os melhores sentimentos da vida. É Arte maiúscula.

** Dr. Renato, ela disse que ainda sente dores. Acho que vai te ligar :)

*** George Clooney, "a fila anda". Volta pro E.R.

**** A história não acabou - ela já me contou. Um dia escrevo outro post, esse ficou enorme. Surpreendente como a vida.

domingo, 11 de outubro de 2009

Seu [melhor] caminho




Clocks - Coldplay/Buena Vista Social Club


era preciso reconhecer seu tempo. havia, também, uma disposição em chegar ao núcleo de tudo. sempre buscou entender o"todo" e hoje sabia que não há entendimento. seu desespero era se havia tempo ou não. ela aproximou imagem e criatura. percorreu seus [des]caminhos, uma cruel necessidade. viu tudo e chorou.

sua dor novamente a levou ao último beijo. acariciava a lembrança, sua maneira de eternizar o que era parte da essência. reconhecia onde esteve e novamente pra lá se deslocara. sentia o descontrole. congelou a imagem, precisava do "instante que é sempre".

era branca a cor do momento. largou tudo - sei lá como aconteceu - e procurou aquilo que lhe dava paz. seu passado era parte. tudo era parte, mas tudo ainda não se formara. era ainda desconhecido. era livre.

havia uma nova canção. deixou seu tênis pra trás e caminhou descalça. soltou o cabelo que estava preso. novamente sentia a brisa. sorria. não sei o que escondia por trás do sorriso, talvez a vitória.

foi colher rosas. olhou pra onde apontava o sol, sentiu-se segura. dançou ao som da nova trilha. seu corpo vibrava como uma nova melodia.

seguiu. achou rosas e frutas, novo sorriso. olhou pro sol e devorou. parecia que tudo era novidade.

parecia que achara seu melhor caminho.

e andava...







* O plantão do IeBN informa: A Terceira Margem do Sena mudou. Agora faz parte, elegantemente, do condomínio "O Pensador Selvagem". Aqui o novo endereço . Tudo muito a cara do Léo! To indo lá...

domingo, 4 de outubro de 2009

Honrar la vida!





Obrigada, Mercedes Sosa!



(Tucumán, 9 de julho de 1935 — Buenos Aires, 4 de outubro de 2009)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Água da Palavra


Para o Léo, o moço da terceira margem do rio! Felicidades...(*)




Milton/Caetano - A Terceira Margem do Rio


A paixão pela palavra é agora agraciada por novas e diversas águas. Águas que não se repetem em trilha alguma. Águas que cantam a nova palavra bendita, palavra-rosa, bendita, rosa-palavra. São palavras que permanecem à margem em busca de outro mergulho.


Outras águas, densas e profundas, são águas de encontro com a rosa-palavra-rosa. Há um falar silencioso, acho que é seu sussurro. Águas que insistem na luta com "o tempo que não perdoa o atrevimento da existência"(**).

A voz das águas diz ao tronco-envelhecido que o tempo não é seu inimigo. O tempo é leal e sem fim para tais águas. Leva, lava velhas-águas e traz [outras]novas-águas. É descanso, é renascimento.

Um ciclo que frutifica a cada velho-encontro-novo. É a terceira margem do outro-rio-de-sempre.

A palavra-rosa-palavra [en]canta o
rio que ri.

É sua trilha, seu belo viver. E é do tamanho da eternidade.





Esse vídeo é imperdível! Milton, Caetano e Guimarães Rosa....






A terceira margem do rio
Milton Nascimento e Caetano Veloso

Oco de pau que diz: eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz, risca certeira
Meio a meio o rio ri, silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz: risca terceira
Água da palavra, água calada, pura
Água da palavra, água de rosa dura
Proa da palavra, duro silêncio, nosso pai,
Margem da palavra entre as escuras duas
Margens da palavra, clareira, luz madura
Rosa da palavra, puro silêncio, nosso pai
Meio a meio o rio ri por entre as árvores da vida
O rio riu, ri por sob a risca da canoa
O rio riu, ri o que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi a voz das águas
Asa da palavra, asa parada agora
Casa da palavra, onde o silêncio mora
Brasa da palavra, a hora clara, nosso pai
Hora da palavra, quando não se diz nada
Fora da palavra, quando mais dentro aflora
Tora da palavra, rio, pau enorme, nosso pai











* É inexplicável, não tem regras. Apenas sei reconhecer um amigo!

** Como farsante que sou, roubei do querido RB a citação "o tempo que não perdoa o atrevimento da existência", no seu último comentário. Lindo, RB!

*** Guimarães Rosa é um sedutor, um dos maiores mestres da palavra.
A Terceira Margem do Rio é um conto pra-lá-de-belo. É profundo! Não é, Léo? (o moço que toca violão e não estudou comigo é especialista na literatura de Guimarães Rosa).

**** A música do Milton e a letra de Caetano, apesar de inspiradas no conto, tem vida própria. Não é repetição, é ritmo. É o conto reinventado pela música. Sofisticação ao extremo, emoção pura. Há dias é minha-trilha-sonora-pra-viver. E pra sempre s
erá....

***** "Sinceramente foi sopa, viu?" - comentário do Caetano para escrever a letra - Eu ri como o rio dessas águas .

domingo, 20 de setembro de 2009

Apenas cinco coisas





Rosa Passos - "Sentado à beira do caminho"



O inverno é estação sentada "à beira do caminho". Começo a despedir-me da estação do recolhimento, silêncio e da solitude. É tempo de caminhar e deixar o soturno. É tempo das cores, há flores pra colher: são rosas. Eu sinto!


Mas eu também abriria mão da primavera ...






Quero apenas cinco coisas
Pablo Neruda

"Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando"







terça-feira, 15 de setembro de 2009

As cores de Chagall


The Bride - Marc Chagall





Gabriel - Lamb


"Bride" é um dos quadros que mais me impressiona e emociona. Não sei se é o movimento das cores, a suavidade dos pincéis ou a expressão da "Bride". É uma obra que me cala. É contemplação, muito mais do que qualquer tipo de entendimento. Acho que algumas obras tem "alma". "Bride" tem vida, um silêncio que fala.

Marc Chagall( Vitebsk, Bielorrússia, 1887-1985) é autor de "Bride" e um dos artistas mais influentes do seu tempo. Tinha contato com a arte popular russa, mas é a cultura judaica sua fonte primária. Ele estava lá, nos bairros de judeus pobres de Vitebsk, mesmo quando morava em Paris. Era a memória involuntária que o levava à sua aldeia. Era sua história, sua grafia de vida.

E dizer isso naquele momento era quase loucura. O período em que Chagall viveu na Rússia era de hostilidade aos judeus, com destruição de suas casas e seus negócios. Mas essa não é a "fotografia" da Vitebsk de Chagall. Ele era mais que a destruição.

Sua família pertencia a um grupo religioso no qual a alegria e o êxtase eram caminhos para a relação com Deus. Sua memória era repleta de cores e suas nuances
. Sua memória é de beleza.





Há uma revolução poética sensual marcada na obra de Chagall. Apesar das vanguardas, da importância de Matisse e Picasso notoriamente na obra de Chagall, pode-se afirmar que o artista russo encontrou sua expressão pessoal.





Dedicou-se à pintura e à gravura e realizou inúmeros mosaicos, vitrais e esculturas. Foi um artista completo. Faleceu aos 97 anos, no sul da França, após ter passado a manhã trabalhando em seu ateliê.


Daqui, celebro a beleza da vida e a beleza da arte de Marc Chagall!









* Lamb é um duo britânico e o vídeo dessa música é espetacular. Bom, eu gostei né?;)